A ideia deste blogue surge da minha necessidade de através da ironia expor problemas e situações que provocam o riso e as lágrimas da sociedade. Sem qualquer censura ou moralismo, mas com a certeza que não devo deixar a minha opinião apodrecer na gaveta. O tempo não é de remorsos, mas também não pode ser de medo. A ideia é ligar os faróis de nevoeiro e iluminar os fantasmas da noite escura.
Este texto foi criado por sugestão do meu amigo João Inácio.
Os bêbados são uma
espécie de anfíbios. Penso que todos conhecem esta expressão e o seu
significado!? São animais que vivem na terra e na água. Os bêbados arrastam-se
por sobre o tampo das mesas e dos balcões, mas também podem beber de pé,
deitados ou em qualquer outra posição, não necessariamente com os pés bem
assentes na terra, mas com o corpo e as entranhas sempre mergulhados no fundo
líquido dos copos e das garrafas de bebidas alcoólicas.
Não passam sem a
pinga. O seu oxigénio provém do alto teor alcoólico que ingerem. Sem essa
lufada de ar fresco, as células cerebrais retraem-se, ofendem-se e sofrem de
falta de ar. Um bêbado deprimido devido à falta de álcool é pior do que um
crocodilo, o maior predador e mais violento dos anfíbios, e ataca a mulher, os
filhos, os melhores amigos e como derradeiro recurso ainda morde a própria
língua, para ver e sentir se em vez de sangue ainda dali escorre um pouco de
álcool que tivesse ficado retido nas papilas gustativas.
O bêbado precisa
tanto de álcool como do coração. O seu organismo só funciona oleado pela
pinguça. Quando está seco é uma pessoa deprimida, recalcada, desesperada, para
quem a vida não tem qualquer significado e sente-se morrer, vítima da malvadez
do destino. O bêbado pode viver com o fígado transformado em iscas, mas não sem
o sangue proveniente da transfusão das bebidas alcoólicas.
De certa forma, e
vendo a situação por um lado puramente maternal, o bêbado é como um bebé que
chora e berra pela maminha e pelo biberão que lhe satisfaçam a fome. Porque um
alcoólico alimenta-se da bebida até perder a consciência que tem estômago ou
qualquer outra parte do corpo e pode passar dias sem ingerir outro alimento.
O bêbado é um
exemplo. Dizemos que um mau exemplo, mas isso parece não corresponder à
verdade. Porque muitos que criticam os bêbados, troçam deles, os achincalham e
os desprezam, alguns tempos ou anos depois andam a cair pelas tabelas, a
vomitar as tripas e a gritar pelas ruas embebedando o silêncio.
A bebida alcoólica é
uma droga! Toda a gente sabe isso. Mas aos olhos da sociedade quem fuma umas
ganzas é visto com repúdio, olhado e condenado como um criminoso, uma pessoa
sem princípios e moral, enquanto o bêbado é encarado e admitido socialmente com
toda a normalidade e o seu gesto de beber, mesmo que seja até perder o juízo, é
aceite até com heroicidade, porque consegue beber tal quantidade de álcool que
faz dele um recordista, quase um ser sobrenatural. Ele torna-se até uma
referência no grupo, que o admira pelas capacidades sem fundo do poço sequioso
do seu estômago.
Beber álcool pode até
ser uma espécie de prova desportiva. Reúnem-se grupos de atletas a dar voltas à
pista do balcão a ver quem é aquele que consegue ir mais longe, ou seja, beber
mais.
Mas atenção, se há algo
que não se pode dizer a um bêbado é que ele é bêbado. Nunca se deve cair no
erro de os confrontar com a verdade. É que o facto deles se emborracharem todos
os dias não tem nada a ver com um problema de alcoolismo, é antes uma vontade
banal, um gesto tão natural como beber um copo de água para saciar a sede.
Não se consegue
chamar a atenção ou convencer um bêbado a parar de beber e fazer-lhe ver o
perigo, a vergonha e a desgraça da sua situação, porque ele tem sempre uma
resposta bem engatilhada, uma desculpa perfeita para nos dizer que devíamos
meter-nos na nossa vida, estar calados e deixarmos de ser parvos.
O bêbado tem sempre
uma desculpa para se embebedar! Ou porque é o dia de aniversário de um filho;
porque está a festejar a vitória do seu clube; está num jantar de amigos; trata-se da época das festas na sua Terra; no casamento do seu melhor amigo não
seria de bom-tom deixar de comemorar; tem montanhas de problemas que, hoje,
precisavam de ser iludidos com a bebida e que amanhã já estarão resolvidos; perdeu
o emprego, tem falta de dinheiro, e a bebida é só para aliviar a situação.
Enfim,
os bêbados são os reis das tretas! Inventam desculpas e mais desculpas para
mandarem uns mergulhos na bebida. Eu que não sou bêbado, psicólogo ou barman,
mas que de vez em quando também bebo uns copitos de vinho, tenho algo a
dizer-lhes: deixem-se de lérias, porque basta olhar para a vossa cara para
perceber que vocês estão bêbados.