sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

AMANTES SEM LEI

Excerto da Novela inédita, com o título "Forrobodó".

AMOR E LITÍGIO NO TRIBUNAL

O episódio que vou contar a seguir ocorreu ainda quando eu era um recatado oficial de justiça e surge aqui como um elemento fundamental para o desenvolvimento desta novela e da minha própria vida.

&&&&&&

Apesar de existir no Estatuto dos Magistrados uma norma que diz que aqueles que são casados ou têm algum grau de parentesco entre si não podem trabalhar juntos, e apesar da existência da lei que contempla e consagra direitos sobre as uniões de facto, a verdade é que o Estatuto é omisso quanto aos relacionamentos e à vida em comum entre magistrados que não assumam declarada e legalmente o seu envolvimento e a sua vida em comum.
O juiz vivia com um procurador da República uma ligação homossexual. Trabalhavam ambos no mesmo Tribunal. E sendo duas carreiras diferentes, os interesses conflituantes, e os constrangimentos legais, de ética e de imparcialidade deverem ser assegurados, o facto é que eles tinham extrapolado a lei e julgado em causa própria, sem isenção, para libertarem o seu amor.
Não serei tendencioso, acusador ou malévolo ao ponto de afirmar com convicção que existe um lobby homossexual na magistratura portuguesa. Certamente que, em todas as classes profissionais e estratos sociais, existem homossexuais. Simplesmente neste caso falamos de pessoas que para além de exercerem e executarem as leis, são eles próprios legisladores dando corpo aos decretos e diplomas legais.
Este poder é como uma força poderosa e imparável que mais cedo ou mais tarde acabará por derrubar todas as barreiras, preconceitos, túneis e por fim os aparentemente sólidos edifícios de leis conservadoras.
O juiz e o seu amante e companheiro procurador da República eram assumidamente defensores do casamento homossexual. Faziam questão de o assumir publicamente nos seminários e nos congressos onde participavam e na sua própria vida pública. Certamente só para não colidirem com a incompatibilidade de trabalharem juntos, é que não expressavam o seu desejo profundo de, quando a lei fosse aprovada, virem a contrair matrimónio.
O certo é que eles se amavam e a sua vida era em tudo decalcada da normalidade e da simplicidade de um relacionamento heterossexual.
 Como fazia exercício no mesmo ginásio que eles frequentavam e dado trabalharmos juntos, tive o privilégio de conviver com eles e de assistir a muitas das suas pequenas manifestações de ternura. Perante tais evidências, e apesar da minha opinião preconceituosa, tive que reconhecer que o amor não tem sexo, não é masculino nem feminino, é plural. É tão-somente amor. Pode manifestar-se nas mais diferentes formas e situações.     
Por consequência também ele é vulnerável, volúvel e está sujeito ao desgaste, ao cansaço e à pressão. Também ele pode acabar, evaporar ou tão simplesmente expressar outra vontade ou desejo. Deixar-se apaixonar por outro corpo, outra pessoa, pela mudança.
Quando o piloto de aviação civil recorreu ao tribunal para regular o poder paternal do seu filho, nascido de um acto heterossexual esporádico e equívoco, a sua beleza tão marcada quanto a evidência da sua homossexualidade, colheu de surpresa os sentimentos do procurador da República. A “química” entre os dois homens produziu uma reacção imediata. Dir-se-á que foi um fulminante amor à primeira vista. Tal reacção teria, inevitavelmente, que produzir efeitos corrosivos na relação entre os dois antigos amantes.
Como sempre acontece a qualquer casal desavindo, entre o juiz e o procurador da República começaram as cenas de manifesto ciúme, as cobranças, as ameaças, os gritos, as lágrimas e os diálogos de incontida raiva. A discussão violenta sobre a partilha do espaço e dos objectos comuns, adquiridos na constância do seu relacionamento. O litígio sobre a forma como resgatar o amor-próprio e os bens pessoais de cada um.
No tribunal vivia-se um autêntico clima de guerrilha entre ambos. Nós, os funcionários, andávamos nos bicos dos pés, tentando não pisar os calos de alguma mina ou armadilha colocada por qualquer um deles, ou por ambos, e irmos pelos ares. Nada pode ser pior do que uma briga entre um casal. Os estilhaços explodem em todas as direcções.
Ainda faltavam alguns meses para que lhes fosse possível concorrerem ao movimento dos magistrados e movimentarem-se para outros tribunais, deixando desta forma de trabalharem lado a lado, por isso foram-se servindo de subterfúgios, apresentando à vez atestados médicos para não colidirem com o despeito e o ódio que se instalara entre eles. Por essa altura já o procurador da República tinha deixado a casa de morada de família e se tinha mudado para o apartamento do piloto, onde ambos esvoaçavam nas nuvens, inebriados pela lufada de ar fresco do seu amor.
Entretanto a lei que consagrara os casamentos homossexuais fora aprovada e publicada em Diário da República, sem que daí o juiz e o procurador pudessem aproveitar comummente o efeito pelo qual os dois tanto tinham lutado.
Continuaram no entanto ambos a promover e a despachar o processo de regulação do poder paternal onde o piloto e ora amante do procurador da República era um dos interessados. Transportaram assim as suas mágoas e quezílias para um processo legal onde ambos deviam ser imparciais, mas que se tornou um verdadeiro ringue, num autêntico combate corpo a corpo. Numa falta de respeito, de vergonha, de moral e de ética, completamente cegos pelas suas disputas amorosas, ultrajando a sua condição humana e profissional e denegrindo a sua imagem e a da justiça, sem qualquer pejo ou remorso.

Quando finalmente saiu o movimento dos magistrados e o procurador da República foi movimentado para outro tribunal, já o processo do piloto se encontrava no tribunal da Relação em fase de recurso, para onde o procurador recorrera das arbitrariedades do juiz e para defender os interesses do seu amante.

sábado, 3 de agosto de 2013

Reality Show

Reality Show
         Há pouco ao pegar num jornal daqueles que nos enfiam no lixo da caixa do correio, fiquei perplexo ao ver um slogan sobre um novo programa de televisão com algumas alegadas celebridades deste país.
      Estes tipos da televisão andam marados, são uns perfeitos idiotas que desconhecem, por completo, o significado da palavra “célebre”, ou então querem rir-se das nossas caras de asnos.
          Actores sem papel, cantores afónicos, jogadores de futebol lesionados, modelos fora de linha, homens/garanhões de sexo de aço, transexuais, homossexuais, mulheres/bonecas recordistas de silicone nas nádegas e nos seios e outras de brevet com mais horas de cama do que gaivotas de voo, são as estrelas do elenco.
          Celebridades? Porquê? Que obras realizaram? Qual foi a sua participação social? O que é que criaram ou inventaram?
          Denominar estes canais de quarto poder, não passa de uma anedota tão célebre e triste como a sua falta de respeito e de vergonha que desumanizam a nossa sociedade.

domingo, 21 de julho de 2013

OS ESPECIALISTAS DO SEXO

OS ESPECIALISTAS DO SEXO

Dedicado à Marta C.

     Vivemos numa era de especialistas. Pessoas com poderes extraordinários, por vezes paranormais, que explicam toda e qualquer situação com laivos de ciência e de sabedoria. Se tens um problema, procura um especialista! Com tanta qualificação técnica e táctica, só não consigo entender porque razão o mundo continua às avessas sem que exista uma certeza se descendemos dos macacos ou de qualquer outra espécie animal, de tal monta é a selvajaria social.
            De toda esta legião de especialistas, confesso, os que mais me intrigam são os denominados sexólogos. Não sei se a sua especialização lhes advém de muita prática sexual, de muitos anos a observar sexo ao vivo, a visionar filmes hardcore, ou a registar a cópula dos rebanhos, das manadas, das varas, de cáfilas ou de outro qualquer colectivo de animais.
           Os sexólogos elaboraram um catálogo do prazer por letras do alfabeto, e asseguram que esse é o ponto sublime do orgasmo. Como se o sexo fosse uma sopa de letras e se falasse apenas uma só língua, de apetite único e  do agrado geral.
         Portanto, se não fazes parte da manada ou gostas de sopa de abóbora, há algo que não corre bem contigo e que pode comprometer o teu desempenho sexual. Cuidado, recorre urgentemente a um especialista! Só ele te pode ajudar a ser feliz!?
            Como se cada pessoa não fosse um desejo individual, o acto sexual não seja praticado nas mais diversas e adversas situações e alguém andasse, como o grego Diógenes, de candeia acesa à procura do ponto G, como a verdade da vida na noite cega do tesão.
            Especialistas do sexo! E isso é profissão? O mundo está mesmo de quatro e não encontra satisfação.




terça-feira, 14 de maio de 2013

CHAMEM UM PALHAÇO






         A Actriz FILOMENA SANTOS declamando "Chamem um Palhaço" na Biblioteca Municipal da Chamusca.
        O Poema está incluído no livro de poesia "Redes", publicado pela Zaina Editores.



CHAMEM UM PALHAÇO

Chamem um palhaço.
Chamem com urgência
o S.O.S.,
o 112,
uma ambulância,
mas por favor
chamem também um palhaço.
É que este povo
está a morrer de um ataque profundo
de stress e de tristeza
e necessita receber uma transfusão de energia
e o ritmo cardíaco de uma gargalhada.
Chamem um palhaço
para que a vida possa sorrir
um sorriso simples
e não ser apenas
um circo de feras,
contorcionistas e malabaristas,
devorados,
desequilibrados,
enrolados e enredados
num espectáculo infeliz
de guerras,
suicídios
e cenas de sobrevivência.

Chamem um palhaço,
porque é preciso rir à gargalhada
para acordar do coma a alegria.

domingo, 5 de maio de 2013

AS DESCULPAS DOS BÊBADOS


          A ideia deste blogue surge da minha necessidade de através da ironia expor problemas e situações que provocam o riso e as lágrimas da sociedade. Sem qualquer censura ou moralismo, mas com a certeza que não devo deixar a minha opinião apodrecer na gaveta. O tempo não é de remorsos, mas também não pode ser de medo. A ideia é ligar os faróis de nevoeiro e iluminar os fantasmas da noite escura.

AS DESCULPAS DOS BÊBADOS

Este texto foi criado por sugestão do meu amigo João Inácio.

        Os bêbados são uma espécie de anfíbios. Penso que todos conhecem esta expressão e o seu significado!? São animais que vivem na terra e na água. Os bêbados arrastam-se por sobre o tampo das mesas e dos balcões, mas também podem beber de pé, deitados ou em qualquer outra posição, não necessariamente com os pés bem assentes na terra, mas com o corpo e as entranhas sempre mergulhados no fundo líquido dos copos e das garrafas de bebidas alcoólicas.
      Não passam sem a pinga. O seu oxigénio provém do alto teor alcoólico que ingerem. Sem essa lufada de ar fresco, as células cerebrais retraem-se, ofendem-se e sofrem de falta de ar. Um bêbado deprimido devido à falta de álcool é pior do que um crocodilo, o maior predador e mais violento dos anfíbios, e ataca a mulher, os filhos, os melhores amigos e como derradeiro recurso ainda morde a própria língua, para ver e sentir se em vez de sangue ainda dali escorre um pouco de álcool que tivesse ficado retido nas papilas gustativas.
      O bêbado precisa tanto de álcool como do coração. O seu organismo só funciona oleado pela pinguça. Quando está seco é uma pessoa deprimida, recalcada, desesperada, para quem a vida não tem qualquer significado e sente-se morrer, vítima da malvadez do destino. O bêbado pode viver com o fígado transformado em iscas, mas não sem o sangue proveniente da transfusão das bebidas alcoólicas.
        De certa forma, e vendo a situação por um lado puramente maternal, o bêbado é como um bebé que chora e berra pela maminha e pelo biberão que lhe satisfaçam a fome. Porque um alcoólico alimenta-se da bebida até perder a consciência que tem estômago ou qualquer outra parte do corpo e pode passar dias sem ingerir outro alimento.
       O bêbado é um exemplo. Dizemos que um mau exemplo, mas isso parece não corresponder à verdade. Porque muitos que criticam os bêbados, troçam deles, os achincalham e os desprezam, alguns tempos ou anos depois andam a cair pelas tabelas, a vomitar as tripas e a gritar pelas ruas embebedando o silêncio.
        A bebida alcoólica é uma droga! Toda a gente sabe isso. Mas aos olhos da sociedade quem fuma umas ganzas é visto com repúdio, olhado e condenado como um criminoso, uma pessoa sem princípios e moral, enquanto o bêbado é encarado e admitido socialmente com toda a normalidade e o seu gesto de beber, mesmo que seja até perder o juízo, é aceite até com heroicidade, porque consegue beber tal quantidade de álcool que faz dele um recordista, quase um ser sobrenatural.        Ele torna-se até uma referência no grupo, que o admira pelas capacidades sem fundo do poço sequioso do seu estômago.
         Beber álcool pode até ser uma espécie de prova desportiva. Reúnem-se grupos de atletas a dar voltas à pista do balcão a ver quem é aquele que consegue ir mais longe, ou seja, beber mais.
          Mas atenção, se há algo que não se pode dizer a um bêbado é que ele é bêbado. Nunca se deve cair no erro de os confrontar com a verdade. É que o facto deles se emborracharem todos os dias não tem nada a ver com um problema de alcoolismo, é antes uma vontade banal, um gesto tão natural como beber um copo de água para saciar a sede.
         Não se consegue chamar a atenção ou convencer um bêbado a parar de beber e fazer-lhe ver o perigo, a vergonha e a desgraça da sua situação, porque ele tem sempre uma resposta bem engatilhada, uma desculpa perfeita para nos dizer que devíamos meter-nos na nossa vida, estar calados e deixarmos de ser parvos.
         O bêbado tem sempre uma desculpa para se embebedar! Ou porque é o dia de aniversário de um filho; porque está a festejar a vitória do seu clube; está num jantar de amigos; trata-se da época das festas na sua Terra; no casamento do seu melhor amigo não seria de bom-tom deixar de comemorar; tem montanhas de problemas que, hoje, precisavam de ser iludidos com a bebida e que amanhã já estarão resolvidos; perdeu o emprego, tem falta de dinheiro, e a bebida é só para aliviar a situação.
Enfim, os bêbados são os reis das tretas! Inventam desculpas e mais desculpas para mandarem uns mergulhos na bebida. Eu que não sou bêbado, psicólogo ou barman, mas que de vez em quando também bebo uns copitos de vinho, tenho algo a dizer-lhes: deixem-se de lérias, porque basta olhar para a vossa cara para perceber que vocês estão bêbados.